Eu Vivia de Aparência

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Nasci na igreja e nunca cheguei a sair da igreja física, meus pais sempre foram da igreja e eu admirava muito eles e queria um dia ser obreira como meu pai era. Conforme virei adolescente algumas coisas mudaram, lembro que quando tinha 11 anos me perguntaram na escola o que eu queria ser quando crescesse e eu disse que queria ser esposa de pastor, minha professora ficou sem entender e os colegas da sala alguns riram da minha cara, afinal quem fala isso na frente de todo mundo não é mesmo?
Aos 12 anos eu estava no Pré Adolescente e comecei a fazer amizades na escola com pessoas que eram chamadas de “Emo” e foi inevitável a minha mudança, afinal diga-me com quem andas que te direi quem és. Comecei a gostar de um garoto e o fato de não poder namorar com ele por conta da igreja e dos meus pais, me fizeram ser uma garota extremamente triste, pois eu gostava dele e embora ele dissesse que também gostava de mim, vivia dando em cima de outras garotas. Eu odiava aquilo e comecei a me envolver total com amigos da escola, vivia ouvindo músicas depressivas, chorava muito, e o pior é que eu começava a chorar do nada.

Eu posso dizer que era uma pessoa de duas caras, pois continuava indo na igreja, conversava com as pessoas, fazia o que era pedido no Pré Adolescente, mostrava para os meus pais que estava tudo bem. Mas dentro de mim vivia um vazio, eu ia dormir todas as noites chorando, achando que ninguém ligava pra mim, comecei a ter complexo de inferioridade onde eu tinha vergonha de mim, me sentia a pior pessoa do mundo e me achava feia, horrível, que ninguém nunca iria olhar pra mim, eu achava que ali era meu fim, mas ainda podia piorar. Na época o Orkut era moda e pra esconder o que eu era, tinha dois perfis no Orkut, um onde mostrava uma menina certinha que ia na igreja, com fotos comportadas e outro que mostrava uma garota totalmente revoltada, depressiva, com fotos de emo e frases de uma adolescente que não aceitava a sociedade.

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Certa vez estava conversando com uma amiga da escola e comecei a olhar ela de outra maneira, não só ela mas todas as garotas bonitas que via, eu olhava para as garotas como um garoto, eu queria estar perto, beijar, sentia desejo por mulher, mas sempre guardei isso pra mim, eu amava ficar abraçada com minhas amigas e como ninguém sabia da real razão, minhas amigas deixavam eu abraça-las e fazer carinho. Meus pais nem desconfiavam de nada, pelo fato de ser muito tímida passei minha vida sem ninguém saber disso.
Eu ficava pesquisando coisas relacionada a pessoas depressivas, e descobri a auto-mutilação, nunca cheguei a me mutilar por medo dos meus pais descobrirem, mas eu achava lindo aquelas fotos de cortes, o sangue me fascinava, sempre que me machucava eu passava a língua no sangue pra sentir o gosto.
Eu me sentia tão frustrada com o fato de viver como se fosse duas pessoas, por mostrar que estava bem quando na verdade não estava que eu pensava em me matar, varias vezes pegava a faca e ficava imaginando eu me cortando, o sangue escorrendo e eu acabando com aquele sofrimento, mas sempre minha mãe ou meu irmão aparecia e eu logo disfarçava para eles não notarem.
E vivi assim durante um ano mais ou menos. Até que um certo dia eu estava indo para o meu quarto ouvir músicas depressivas, imaginar coisas que não deveria e chorar e parei no meio da escada que levava para o meu quarto e pensei “Até quando vou continuar vivendo assim? Ouço o pastor todos os dias pregar sobre felicidade, sobre salvação e inferno e eu sou triste. Vejo pessoas ao meu lado felizes mas sou triste, mesmo estando dentro da igreja.”

Continua…

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